9 de fevereiro de 2016

O sistema


Há algum tempo que suspeitávamos que isto poderia acontecer e na verdade aconteceu mesmo: isto de ir para a escola primária foi mesmo uma grande mudança na vida da nossa filha. Desde o jardim de infância, passando por comentários de familiares e terminando nas aulas de ballet, que sempre tivemos de ouvir que a nossa filha não é de regras; "só está na fila breves minutos" - diziam. Não é mal educada, não é desordeira, não perturba o bom funcionamento das aulas, porém, perturba o seu enquadramento num sistema montado. O que fazer quando vemos que um filho aprende a ler, a somar e subtrair, a escrever mas no fim, quando lhe pedem para fazer um exercício, quando lhe pedem para copiar um texto ou fazer um teste, essa criança começa a fazer a tarefa e sistematicamente acha melhor pousar o lápis e pensar na morte da bezerra?

Uma espécie de anarquista silenciosa é o que temos? Testes que poderiam estar em branco não fosse a persistência da professora em mantê-la na Terra quando a sua cabeça já vai em Marte... Desenhos muito criativos e pormenorizados, mas fazer o que os outros colegas fazem está bem está. Então e depois o sistema? Pois o sistema não está cá com meias medidas, ou sabes e demonstras por escrito ou então estás fora, és uma aluna diferente. Não fazes parte do rebanho.

Eu sempre fui muito "carneira", fazia o que os meus colegas faziam, não dava chatices, era responsável, sofria por antecipação. A minha filha é o oposto, não quer saber não porque lhe é indiferente mas porque simplesmente os seus interesses não passam por aí... Damos um tempo, é imatura, vai dar o click não tarda, passa um mês, passa mais outro, há dias em que mostra iniciativa de fazer os deveres há outros em que temos de andar a dar sermões e penalizações que a façam realizar que infelizmente o sistema é assim e que não há muito tempo disponível para a criatividade. A criatividade e a energia que estão dentro dela terão de ser estimuladas e alimentadas fora do sistema, porque o sistema não tem tempo para passeios, para museus, para música. Infelizmente.

A maior pena que eu tenho é a de estar a forçar a minha filha a ser uma pessoa completamente diferente daquilo que é sua essência.

(desabafos)

14 comentários:

Raquel disse...

Ai Sofia... Que dizer? Quando me ponho a pensar neste tema, fico angustiada, revoltada, triste por perceber que o sistema em que a Escola se transformou, hoje em dia, não faz mais que "matar" o que as crianças como a L. têm de tão bom e tão importante! Mata-se mesmo a criatividade em vez de a promover! É isso dói-me tanto cá dentro! De verdade!
Quando estava a ler o post senti as palavras ("dores") como minhas, por a perceber tão bem! Tantas vezes tenho esta conversa com o meu marido e com amigas que já têm os seus filhos nas escolas. Ponho-me logo a pensar como será quando forem os meus filhos. Parece-me, às vezes, que é um bocado jackpot, depende dos professores que encontram pelo caminho. Gosto de pensar que haverá alguns mais iluminados e que percebam que há coisas tão mais importantes que passar trabalhos de casa ou mantê-los sentados horas infinitas sem fazer barulho! Eu também fui uma verdadeira "carneirinha", comigo resultava e não foi por isso que a minha criatividade se apagou. Mas a Escola, no meu (nosso) tempo não era nada disto! Agora parece um trabalho a tempo inteiro, sem direito a grandes pausas para respirar, há metas estabelecidas para tudo e, com isso, quem não embarca no comboio... Fica a pé! :-( É triste, muito triste! Tanto mais havia para desabafar consigo sobre este tema!
A sorte é que a L. tem pais que a conhecem bem e que lhe vão dar sempre asas para sonhar! :-) Acertei?
Beijinhos para o V. e para si e a L. :-)

**SOFIA** disse...

Raquel, isto não é nada fácil... nós que somos 100% a favor do ensino público sentimo-nos deslocados. Vale-nos a atenção da professora que é adepta de tarefas moderadas e que respeitam os ritmos dos alunos e dos pais, contudo, ela também não pode fugir ao chamado "sistema" e isso custa-nos a todos.
Obrigada pelo seu comentário e beijinhos aos meninos**

Isa disse...

Eu era 100% a favor do sistema público até ter-me apercebido que as coisas têm vindo a ficar descontroladas, quer em número de alunos, quer metas. Para já a minha ainda está num colégio, tem 3 anos, e eles têm a filosofia que as crianças aprendem melhor através de brincadeiras, passeios, experimentar, aplicar o que aprendem a vida real concreta (ir às compras, etc). Na primária não há trabalhos de casa e consolidam a matéria com trabalhos em grupo na escola, com investigação, estimulando a curiosidade dos pequenos! Mas isso não se faz numa turma com mais de 25 alunos... E mesmo com mais de 20..... Enfim! Muita força e perseverança e tentem arranjar-lhe actividades extra que permitam dar asas à criatividade! Beijinhos

Sarah disse...

Bom dia :)

Apenas gostaria de sugerir o método Montessori. Existem escolas em Portugal que seguem esta disciplina.
Abraco

Simplesmente Ana disse...

Sofia, escola pública ou privada, no que a (des)respeitar o ritmo de cada um vão dar ao mesmo.

O mote é sempre o mesmo: cada criança é diferente, logo, cada uma tem o seu ritmo. Pois, está bem. Ainda não vi nada disso. Todos são avaliadas pela mesma tabela. Quem fica para trás, que corra, que se frustre, que se sinta inferior. É o que temos.

Modern Ana disse...

É uma pena esta sociedade formatar, esmagar todos sob a bitola da máquina "sistema". Que mesmo para os que subjugam tenho dúvidas se é o melhor... sistema. Porque valoriza a passividade em vez da criatividade. A regra em vez do questionar. Todos domados a pertir dos seis anos. Custa ver isso. Tenho dois entreados, gémeos. Um entra no sistema, para o bem e para o mal. O outro não. Diz que é hiperactivo. Está medicado para se portar bem. Quase que parece o "Admirável Mundo Novo" do Huxley. Para quem leu, sabe do que falo. É triste... Mas a vermos bem, sempre foi assim. O "sistema" era ainda pior - e com direito a reguadas a quem não se subjugava - no tempo dos nossos pais...

**SOFIA** disse...

hoje estive todo o dia afastada do computador e só agora vi os vossos simpáticos e, como sempre, pertinentes comentários.
obrigada!!
bjs

ines disse...

Tenho uma igual cá em casa. Atrasámos a ida para o 1.º ciclo à espera do tal clique... de que a maturidade chegue... começo a ver que não vai chegar!!!! ok! Vou-me preparando...mas realmente não dá para as transformar naquilo que elas não são, mas seria muito mais fácil para nós, porque para elas está bom assim.... elas flutuam noutro universo!
Inês

Anónimo disse...

Outros métodos de ensino:
https://www.youtube.com/watch?v=IqySkgdyqwc e também há o Montessori....

Inês Vinagre disse...

Penso que como em tudo, se pode chegar a um equilíbrio... É importante estimularmos os nossos filhos a serem criativos, a explorarem opções diferentes das propostas. Mas também acho essencial que experimentem perceber o que lhes ensinam e a procurarem cumprir com as regras e parâmetros. Não é fácil, mesmo nada fácil, alcançar este equilíbrio que é por si só, instável, tem avanços e retrocessos, mas no fundo é no caminho que se faz a caminhada...

Lipa disse...

Tenho um desses para troca...a prof. ate chegou a desconfiar que tinha deficit de atenção pois enquanto os colegas faziam as fichas ele ficava a pensar sabe-se lá no quê. Apesar de bem comportado também não é amigo de regras forçadas nem de ser obrigado a ir com a "carneirada". Sofreu um pedaço no ano passado (ele e nós claro) e foi como remar contra uma maré forte o ano todo. Este ano no 2º está bem melhor, ainda não é grande fã de tpcs nem de tarefas chatas como preencher tabelas repetitivas ou copiar tabuadas mas tem-se safado bem, evoluiu bastante na leitura e escrita e as notas sao ate um pouquinho acima da média...sim muito era imaturidade (fez os 6 anos dias antes de começar o 1º ano) e muito vinha da personalidade dele. Ainda não estamos "safos" mas respiramos muito de alivio. Desconfio que vocês no ano que vem passarão pelo mesmo ;)

Aline Brito Paiva disse...

Olá Sofia. Compreendo perfeitamente essas ansiedades e desabafos. É o uma coisa que sempre me preocupou: obrigar um filho nosso a ser parte da manada e cortando-lhe criatividade, imaginação, diferenças que os fazem unicos.
aqui em lisboa, particulares ou publicos, pesquisei tudo e mais um par de botas e a minha escolha recaiu num colégio ( particular e caro demais :( ) que assenta o sistema de ensino na Pedagogia de Montessori.

Entre muitas coisas, têm estas particularidades:
- menos carga horária (respeito pelo descanso das crianças com 6 anos..)
- autonomia pedagógica (têm até ao 4º ano para cumprir o curriculo imposto pelo estado, mas eles gerem a forma de o dar e o tempo dedicado a cada matéria)
- ausência de avaliação quantitativa
- primazia do ar livre e natureza
- pintura, musica e desporto ocupam um papel fundamental
- têm a disciplina Horta no curriculo desde o 1º ano

e mais pormenores que me fizeram tomar a decisão.
Tem a enorme desvantagem da mensalidade, justificada porque grande parte do que comem é criado no próprio colégio.

Investiguei e a passagem deles para o 2º ciclo é pacifica. Vão a gostar de aprender e estudar, porque não lhes foi imposto. Foi-lhes incutido o gosto por isso, de acordo com o ritmo de cada criança.

Visitei "n" escolas em lisboa e o meu coração tomou a decisão.

Compreendo perfeitamente o que escreve e estou consigo nesses anseios.
O nosso sistema de ensino publico teria muito a ganhar com os nossos vizinhos nordicos, onde saber brincar e imaginar é uma competência tão valorizada como saber contar.

Catarina disse...

Li este teu desabafo com muita atenção e consigo imaginar o que devem estar a passar e sentir... é um assunto que nos dá a volta à cabeça e que vai contra algumas das nossas convicções. Essas convicções que temos antes de passar por elas e que depois percebemos que na prática de pouco nos servem infelizmente :(.
Confesso que tenho algum receio dessa fase. Por ela, por mim, pela nossa sanidade, felicidade, futuro, etc., etc. e tal...
Eu entrei para a primária pouco antes de fazer 7 anos e lembro-me que no início custou um bocadinho a "assentar". Sempre me distraí com facilidade e acabava também por distrair quem estava à minha volta... Ao longo dos anos os professores foram dizendo aos meus pais que eu era boa aluna, mas que podia ser muito melhor se me focasse, se não dispersasse com tanta facilidade. (ainda hoje é assim, confesso...)
Já a minha irmã entrou com 6 anos acabados de fazer e correu muito bem pelo que me lembro.
Este sistema padronizado, que vê as crianças como se fossem todas iguais não só é estúpido como altamente injusto. Uma sociedade assim "uniformizada" é o pior que podemos fazer, mas enfim, também acaba por ser desesperante lutarmos sozinhos contra um sistema que não nos ouve, que é autista por convicção. Por isso tentem não desesperar, mas também não deixar que ela tire os 2 pés da realidade.
E a criatividade e personalidade, essas coisas estranhas e sem qualquer interesse para o montro Sistema, que seja incentivado e trabalhado no pouco tempo que ainda nos resta para viver em família.

Bjs para os 4

**SOFIA** disse...

Há muitos anos quando foi lançado o Renault Twingo ouvi dizer que o design do carro foi inspirado em desenhos de crianças a quem foi pedido que desenhassem o carro do futuro. Não sei se a história é verídica ou não, já a ouvi há muitos anos mesmo, mas é um exemplo de como os adultos acabam por muitas vezes ficar com o pensamento demasiado formatado e que só pensando de uma forma live e sem pré-conceitos formais e estéticos (entre outros) conseguimos dar mais um salto no progresso. Há quem diga que limitando a criatividade das crianças entraremos num retrocesso completamente desnecessário...

isto é um assunto que daria pano para mangas :)
obrigada mais uma vez pelos vossos comentários!!!