25 de outubro de 2010

As nossas vidas e as opiniões dos outros

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as nossas crianças, entenda-se do mundo inteiro, deveriam ser amamentadas até aos dois anos de idade. O princípio do qual se parte é nobre, sim senhor, de acordo com as suas estimativas, evitar-se-iam as mortes de cerca de 1,5 milhões de crianças. Mas será isso viável na nossa sociedade, industrializada, onde as mulheres trabalham fora de casa e querem ser algo mais do que "mães"? No terceiro mundo, onde as crianças andam ao Deus-dará, acho que sim, as suas hipóteses de receberem melhores nutrientes é mais do que uma boa razão, mas olhando ao meu caso, não vou generalizar, isso seria impensável. Eu nem quero imaginar se eu tivesse optado por continuar a amamentar, ter que andar todo o santo mês a pedir atestados, a informar toooooodo o escritório que ainda andava nessa vida, eh pá, não obrigadinha. Até certo ponto podemos fazer concessões em prol dos nossos filhos, mas depois e nós? Aí instala-se muitas vezes a culpa, "ai que fui eu tirar a mama à pobre criança porque já não quero/posso...", a culpa é o sinónimo da pressão da sociedade, de instituições como a OMS e dos cada vez mais puritanos dos deveres maternos.

A propósito deste e de outros assuntos actuais, como as carreiras, o bem-estar da mulher, mais filhos, casamentos, relações em geral, chegou às livrarias este livro - O Conflito: a Mulher e a Mãe, da filósofa francesa Elisabeth Badinter. Neste livro, a autora alerta as mulheres, a sociedade, para o crescente número de movimentos naturalistas que defendem o regresso das mulheres a casa, abdicando das suas carreiras, bem como os partos sem anestesias e a amamentação prolongada. Claro que não há qualquer mal em tomar qualquer uma destas opções, ou todas até, o problema impõe-se quando as mulheres se sentem pressionadas pela sociedade a tomar estas decisões.
Um livro que me aqueceria o coração no próximo Natal, sem dúvida.
Da editora Relógio d'Água, ainda não se encontra à venda nas lojas on-line de Portugal.

9 comentários:

Maria de Lurdes disse...

Concordo plenamente contigo, em tudo. Os fundamentalismos da mama, como qualquer fundamentalismo, só prejudica todas as partes, incluindo os miúdos...

E tal como dizes, mesmo que houvesse essa vontade, seria difícil concretizar, se não impossível, na nossa sociedade e ainda mais em Portugal. É difícil conciliar carreira e filhos quando se trabalha muitas horas fora de casa, principalmente quando pai e mãe trabalham muitas horas fora de casa e quando se espera que a mãe trate dos filhos, apenas com uma "ajudinha" do pai, sem verdadeira partilha da parentalidade. Felizmente não é o meu caso, mas é o da esmagadora maioria. Portugal ainda tem muito para avançar no que diz respeito a flexibilidade de horários, teletrabalho e igualdade na partilha dos deveres de cuidados aos filhos. Talvez assim fosse mais fácil cada mulher (cada família) fazer as suas escolhas, sem ter nenhuma imposição externa e sem culpas e ainda, sem prejuízo dos filhos.

Marta Mourão disse...

Concordo plenamente contigo.
Para além de ser difícil pela logística que envolve amamentar até aos 2 anos, é completamente coerente a mulher/mãe simplesmente não querer, a partir de certa altura, continuar com a amamentação.
Sim, há quem não queira e não é crime nenhum não querer. Não se é menos mãe por tomar a decisão de parar de amamentar, embora haja muita gente que tome isso como um atentado à maternidade.
A propósito do teu post, vê esta capa:
http://www.youkioske.com/prensa-espanola/magazine-el-mundo-17-octubre-2010/

Há quem se sinta muito ofendido com ela. Eu percebo perfeitamente o seu sentido.

R. disse...

Absolutamente de acordo! sendo certo que estes estudos da OMS são de facto correctos se incluirmos, como bem referes, as necessidades nutricionais das crianças de terceiro mundo. Não é de facto o nosso caso, muito embora quase ninguém faça essa precisão. De acordo com o pediatra da Laura, a partir dos 12 meses já fará mais mal que bem quer ao bebé e sobretudo à mãe.

No entanto, a pressão sobre as mães é intensa, e é tão injusto tendo em conta, realmente, a falta de condições para possibilitar essa amamentação.

Bjs

Marina disse...

Acho que não é preciso andar a pedir atestados nem reduções de horário para amamentar até aos dois anos ou mais. Conheço quem o faz e também pretendo fazê-lo sem prescindir da "minha vida" por assim dizer. Não é por dar mama ao deitar ou ao levantar (que é disto que se trata quando se ultrapassa a barreira do primeiro ano) que vou perder a oportunidade de ser mais do que mãe. Bjs

**SOFIA** disse...

Marta: a capa está o máximo, mas acho que agora impõe-se a pergunta: quanto tempo mama o vitelo? ;-)

Marina: eu conheço duas mães q amamentaram mais de um ano e mesmo o fazendo de manhã e à noite não prescindiram dessa regalia. Se há leis q favorecem uma situação é fundamental aplica-las!

Marina disse...

Eu não digo que se deva prescindir dessa regalia, muito pelo contrário, é aproveitá-la enquanto se pode! Só acho é que não é por dar mama de manhã e à noite que vamos deixar de "ter vida própria".

miriam disse...

sabes o que eu acho em relação a isto tudo? é tapar os ouvidos e não ligar ao que as pessoas dizem =))) no caso de se querer dar de mamar e de não querer.
eu dei até aos 13m e parei porque ele quis, fiquei cheia de pena, confesso!... mas, não fiz disso nenhum drama e acima de tudo nunca fui fundamentalista neste aspecto. sempre disse que a partir do momento que me sentisse incomodada com o assunto pararia...

Madame Pirulitos disse...

Hummmmm. Vou ali dar de mamar e já volto.

:)

Tica disse...

Os fundamentalismos sejam eles quais forem não servem para nada... não há que impor nada... As mulheres devem querer ficar em casa porque sim, e estando em casa têm outra disponibilidade, tudo bem!
Agora eu é que não fico em casa, sei que não é para mim, mas o problema está na NÃO APLICAÇÃO DAS LEIS no mundo laboral, porque elas existem!
Bastava os pais simplesmente sairem à hora certa do trabalho (aquela para que foram contratados) para alguns problemas se desvanecerem... E depois se o casal partilha as tarefas, mais fácil é.
O código do trabalho contempla férias com os filhos, dias para se ir à escola e reunião de pais, caso de doença, enfim... Mais coisas deveríamos ter direito para se conciliar melhor, mas se já isto tudo fosse feito naturalmente, sem que no dia a seguir nos olhassem de lado porque fomos a uma peça da escola ou porque saímos às 18h... ERA FORMIDÁVEL!