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10 de março de 2018

Leitura de fevereiro - Viver com os Outros


Durante o mês de fevereiro tive a oportunidade de voltar a uma rotina que pratiquei durante muito tempo: ler no comboio. Ainda que o comboio circule ainda mais cheio do que antes, a verdade é que esta continua a ser uma boa ocasião para ler sem grandes perturbações.
A propósito deste artigo e depois este, achei que tinha de ler o livro "Viver com os Outros" de Isabel da Nóbrega. Gosto sempre de uma boa intriga e envolvendo figuras literárias a coisa melhora substancialmente quando falamos de José Saramago e a sua vida polémica. Se há quem teorize sobre a carga de influência que Isabel da Nóbrega teve na evolução de José Saramago enquanto escritor, há também que defenda que essa influência não passou de uma coincidência.

Quis então ler este livro para conhecer o estilo de Isabel da Nóbrega e não posso dizer que me desiludiu mas também não posso afirmar que me arrebatou.
A história passa-se numa única noite, um serão de verão no apartamento de Ana, onde um grupo de amigos vão conversando sobre a vida. Os temas vão passando das banalidades do dia-a-dia até atingirem maior profundidade pessoal e filosófica. Como vivemos com os outros, qual o nosso lugar no mundo, a burguesia, a liberdade da mulher portuguesa e os limites que o casamento impunha, ter ou não ter uma profissão e a independência que advinha de tal poder.
O livro é de 1964 (foi prémio Camilo Castelo Branco) e julgo que à época terá sido uma lufada de ar fresco porque todo o ambiente é descrito de forma descomplexada e sem rodeios, é efetivamente um conjunto de diálogos entre amigos uns concordantes outros discordantes mas em ambiente sereno e  educado; se fosse escrito hoje talvez disséssemos que não passa de um conjunto de lugares-comuns do quotidiano.

Ainda voltando a José Saramago, julgo que os livros que escreveu durante o relacionamento com Isabel da Nóbrega foram efetivamente os que mais gostei até até agora, nomeadamente O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Memorial do Convento ou mesmo Levantado do Chão, mas daí a dizer que a sua escrita, tal como a conhecemos, é o resultado da influência de Isabel da Nóbrega tenho as minhas reservas pois (neste único livro que li, é certo) não consegui encontrar pontos comuns que me remetessem a Saramago... Não obstante, Viver com os Outros é um livro que recomendaria a leitura caso o encontrassem, pois o mesmo está esgotado no editor - o meu veio do OLX, confesso :)

1 de fevereiro de 2018

Leituras de Janeiro - correu bem!



Entre muitos afazeres e poucas oportunidades para escrever aqui no blog, tive alguns momentos de leitura durante o mês de janeiro.

Finalmente terminei o livro Levantado do Chão de José Saramago, já escrevi sobre este tema umas duas vezes mas agora que o finalizei posso realmente dizer que é mais um título a estar entre os melhores do nosso Nobel. Embora a trama ande ali um pouco às voltas do mesmo, o que me desinteressou durante um tempo, a verdade é que a escrita é sempre muito, muito boa. A descrição da morte, dos casamentos, da pobreza, das desigualdades sociais está perfeita e volto a dizer que não há escritor com esta sensibilidade de escolha de palavras. É um livro sobre uma família, a Mau-Tempo, que desde o início do séc XX até ao 25 de abril vai  lutando num dia-a-dia de pobreza e esforço físico em que o Alentejo é o cenário. Gostei bastante e recomendo!

A seguir li o livro A Gorda, da Isabela Figueiredo. O que dizer? Eu estava com muitas expectativas porque tinha lido algumas críticas muito positivas e entusiasmadas sobre esta história, mas a verdade é que me deixou assim um pouco querer mais. Achei a personagem sempre muito arrogante e achei que o facto de ser gorda nem sempre terá sido bem explorada, nem a operação que entretanto realiza para combater o apetite. Mas o livro não está mal escrito, pelo contrário, há passagens bastante boas e que prendem, sobretudo à medida que o livro se aproxima do fim. Gostei mas não me convenceu.

Por fim li o Fim, da Fernanda Torres. Vi a referência a este livro na Pipoca Mais Doce e fiquei logo com vontade de o comprar porque sou muito fã da Fernanda Torres desde Os Normais, que eu adorava! O livro é muito bom, conta a história de 5 amigos (homens) desde a juventude nas décadas de 60-70-80 e que chegados aos anos 2000 já na velhice, começam a fazer uma retrospectiva de tudo o que fizeram. O livro está em português do Brasil, creio que não há adaptação do texto na edição que eu comprei o que para algumas pessoas poderá ser um problema, a mim não me aborrece. Quem não está muito por dentro da cultura brasileira e carioca pode por vezes ficar perdido em algumas expressões e até lugares, mas quem viu muita novela da Globo já tem meio caminho andado para se contextualizar. Muito bem escrito, linguagem masculina muito bem recriada, as festas, o mulherio, bacanais, calor, praia, cerveja, tem tudo aqui neste livro. Gostei muito!!



Agora vamos ver o que consigo ler em fevereiro :D

30 de dezembro de 2017

Dilemas do meu serão - o resultado!


Recordam-se deste post? Pois é, no início deste ano desafiei-me a ler 12 livros, ou seja, um livro em média por mês. Se bem que tivesse iniciado com energia, a verdade é que à medida que o ano foi avançando, o meu ritmo abrandou. Tive a infelicidade de ter escolhido um ou outro título que não me convenceram tanto quanto eu estava à espera, mas a verdade verdadeira é que me deixei vencer pela preguiça; literalmente.

Dos 12 livros que eu achei que ia ler, consegui terminar 7 (coluna da direita, embora tivesse desistido do Bordain a meio) e continuo com o Levantado do Chão do Saramago já "estacionado" há uns dois meses. Ainda pensei que no último mês conseguisse dar a volta à situação, mas não tive mesmo hipótese. Embora não tivesse sido um falhanço monumental, foi um objetivo não conseguido, o que é sempre chato, no entanto, comparando com o meu ritmo de leitura dos últimos anos, isto até nem foi mau de todo. Ver o copo meio cheio acaba por ser uma boa opção :)

Ainda que tivesse ficado aquém do resultado previsto, a verdade é que os livros que ficaram por ler (coluna da esquerda), seguem diretamente para 2018 e vou tentar novamente chegar aos 12 livros para este próximo ano!
E por aí, alguém conseguiu ler mais do que no ano anterior?

Boas leituras e até breve com um resumo!!


8 de novembro de 2017

Leituras de setembro e outubro (e novembro...)



E como andam as minhas leituras? Andam lentas... Em setembro li a sequela do livro Mataram a Cotovia e também gostei bastante. "Vai e Põe uma Sentinela" foi escrito antes de MaC, talvez numa espécie de rascunho ou ensaio para a obra que veio colocar Harper Lee na história da literatura e as personagens nesta obra são mais velhas, mas os problemas da raiz daquela sociedade mantém-se e são agora abordados por uma adulta ao invés de uma criança. Os dois livros vão bem ao encontro daquilo que gosto de ler, são retratos muito bem feitos de uma determinada sociedade e onde as diferenças sociais são marcantes, recomendo!

Depois voltei ao meu Saramago. Recebi o livro Levantado do Chão no natal do ano passado e só agora chegou a sua vez. Tenho lido pouco e ando desde outubro às voltas com este romance, uma história sobre os lavradores do latifúndio alentejano. Um livro bem português, muito rude, muito calor, muita fome, ganância, o povo, a nobreza e o clero, mais a guarda que serve os que mandam e oprime os que trabalham. Aqui nota-se imenso o facto do escritor ser comunista e confesso que em várias passagens dei por mim a ser também mais vermelha do que o costume (mas não ligo nenhuma à política, só o indispensável). Embora esteja a gostar do livro, por vezes dá-me a sensação de ser um pouco repetitivo, mas ainda não cheguei ao fim portanto logo se verá, ainda assim é sem dúvida mais um dos meus favoritos do nosso Nobel, adoro!!

No início do ano assumi o desafio pessoal de ler 12 livros durante este ano, e a esta altura do campeonato estou um pouco atrasada. Com este do saramago vou no oitavo livro o que significa que ainda deveria ler quatro livros até ao fim do ano... está complicado!

Livros que estão em espera:

- Pela Estrada Fora - O Rolo Original -- Jack Kerouac
- A Amiga Genial -- Elena Ferrante (na estante da minha mãe)
- A Noite -- José Saramago (podem oferecer-me pelo natal!!)
- A Gorda -- Isabela Figueiredo (também me podem oferecer no natal!!)

Se calhar agora devia ir ler um bocado :D

22 de setembro de 2017

Fomos passear a Óbidos!

No primeiro fim-de-semana de setembro fomos com a família do Minho dar um passeio para os lados de Lisboa. No ano passado a experiência tinha sido tão boa no eixo Mafra-Sintra que este ano quisemos repetir a dose, também ficando na Mata Pequena como sede familiar ;)
Começámos o nosso passeio em Peniche com uma breve paragem para almoçar, no entanto não deixámos de fazer uma rápida visita ao forte.



Durante a tarde passamos umas horas em Óbidos que curiosamente acolheu um festival de circo de rua com vários artistas a animar em diversos pontos da vila. Os miúdos adoraram, claro está! Fora o festival, é sempre um prazer regressar a Óbidos, no entanto, e à semelhança de várias cidades/vilas/aldeias/praias também aqui há MILHÕES de pessoas em todo o lado e é quase sufocante passear. Não dá!


As crianças são um pouco imunes a estas invasões, cá para mim começam a achar que isto é normal e se calhar o melhor é começarmo-nos a habituar também... Ainda que estivesse uma enchente bíblica nas ruas, tivemos a sorte de entrar na livraria Ler Devagar e estar por breves momentos num ambiente sossegado e muito giro. Os miúdos adoraram todo o ambiente, a disposição dos livros, a pequena mercearia e eu aproveitei e comprei As Aventuras de Tom Sawyer por uns singelos 3€.



Entretanto não posso deixar de fazer o triste reparo da mais recente moda/parvoíce que uma alma se lembrou. Mesmo à entrada de Óbidos há um cartaz a comparar uma casa branquinha com a mesma toda rabiscada de azul, pede-se no cartaz que não se marquem as parede. Ora sucede então que alguém achou GIRO passar o dedo nos frisos azuis e vai de escrever o nome na parede caiada de modo a que fique mesmo registado que lá passou. Se fosse só uma parede, se fosse num bar, OK, mas meus amigos, são várias as casas na rua principal que já sofrem com este vandalismo. Enfim, o que dizer? Vão sujar as paredes da vossa casa masé!

No ano passado fomos a Óbidos e garanto que isto ainda não tinha começado...







Os miúdos adoraram este número de fado! Muito fixe!





Tirando a rua principal que é realmente o caos de lojas, pessoas, barulho e agora também as TAGs, todo o resto da vila permanece parada no tempo e é tão bom contemplar esta paisagem.


29 de agosto de 2017

Leitura do último mês - Mataram a Cotovia



(adorei a personagem Dill)


Ultimamente tinha ouvido aqui e ali algumas referências sobre este livro, investiguei um pouco sobre a história mas sobretudo sobre a autora. Creio que na maior parte das vezes, dou preferência a um livro ou mesmo a um filme não tanto pela história mas por quem está por detrás da ficção. Achei então curioso que Harper Lee apenas tivesse escrito um livro e que justamente recebeu logo o Pulitzer por esse mesmo livro e depois disso (e da adaptação do livro ao cinema) recolheu-se ao silêncio. Há pouco tempo, mais precisamente há um ano, editaram um segundo livro da autora, que pelos vistos até é o primeiro mas conta a história da Scout (personagem principal e narradora de Mataram a Cotovia) já adulta e de regresso à terrinha.

Pus-me então a desbravar o Mataram a Cotovia e gostei muitíssimo. FINALMENTE um autor estrangeiro que me manteve agarrada ao livro. A história está dividida em duas partes, sendo a primeira um longo desenvolvimento de todas as personagens e com breves indícios daquilo que seria a verdadeira história. Embora tivesse lido uma ou outra sinopse do livro, a verdade é que nunca me fazem muito sentido e não lhes presto muita atenção e ainda bem :) A história passa-se nos EUA na época da Grande Depressão e a autora inspirou-se bastante na sua própria infância para escrever, ela é a narradora Scout, tem entre 5 e 8 anos durante os verões intermináveis e é sob o seu olhar e do seu irmão e melhor amigo Dill (inspirado em Truman Capote!) que vamos percebendo a realidade de uma pequena cidade do sul dos EUA. Quando digo Sul, podem logo associar as criadas negras, igrejas de brancos, igrejas de pretos, os chazinhos, bêbados, mancos, famílias bem e a enorme questão racial ligada à (in)justiça. Infelizmente é um livro que ainda é bastante atual e que a cada dia parece que vemos os EUA a regredir ou enfatizar estes problemas entre brancos e negros ou emigrantes ou lá o que é. Embora a história seja boa e bem contada, não é propriamente uma novidade, há alguns filmes e livros que abordam exatamente a mesma questão, aqui a diferença que existe, e que quanto a mim é a mais-valia do livro, é mesmo a abordagem do ponto de vista da criança. Dos verões maravilhosos e intermináveis que nós também já tivemos. As brigas entre putos, as aventuras à noite, o fugir de casa, a mentira, a noção de injustiça e os porquês que as crianças colocam de forma tão simples por não terem as mentes retorcidas pelo preconceito. A personagem do pai dos miúdos é também muito muito boa e inspiradora pela sua retidão e clareza do discurso.

Entretanto aguardo a chegada do livro Vai e Põe uma Sentinela, também de Harper Lee e que surge com uma Scout já crescida que regressa de Nova Iorque a Maycomb. Estou muito entusiasmada em reencontrar estas personagens e ver a sua evolução.

Edições que eu adquiri (imagens do editor)


7 de junho de 2017

Ando Desassossegada




Ando há uns dois meses a ler o Livro do Desassossego e tem sido um mix de devoro-dezenas-de-páginas com passo-semanas-sem-ler. Sempre que leio o livro, adoro; mas depois dá-me preguiça de continuar, o que é uma tristeza, lamento... Pelo que pude perceber há várias interpretações deste Livro, trata-se de um conjunto imenso de pequenos textos de Fernando Pessoa sob o heterónimo de Bernardo Soares e que estão na sua maioria catalogados pelo autor como fazendo parte de um Livro do Desassossego que nunca chegou a ser publicado em vida de Fernando Pessoa. Após décadas de estudos, interpretações e possíveis organizações começaram então a ser publicadas edições e versões  do livro e uma dessas edições eu acabei por comprar (Editora Assírio & Alvim, compilação de Richard Zenith), com prefácio explicativo e inúmeras notas. Embora o livro seja um conjunto de textos soltos, há um certo fio condutor, alguns temas recorrentes, no entanto para mim fica cada vez mais claro que sou mesmo adepta da ficção com narrativa, cativa-me mais a intriga e a conclusão do que textos abertos ou autobiográficos. Mas voltemos ao livro!
O sentimento constante de inquietação, de descontextualização, de falta de pertença, de desassossego são então os vetores do livro. Bernardo Soares é o heterónimo mais próximo de Fernando Pessoa, é até chamado de semi-heterónimo ou quase um pseudónimo. O livro tem textos maravilhosos, alguns deles também fazem referência à vida inocente e desprendida das crianças e das saudades que o autor tem desses tempos. Outra das temáticas abordadas é a da insatisfação profissional, um tema bastante atual por assim dizer, mas que se calhar há uns 100 anos não seria certamente tão discutido nem tão pouco considerado opcional - largar tudo e começar do zero? jamais!
A rotina daquele empregado de escritório, que todos os dias sai do quarto alugado, vai trabalhar, encara as mesmas pessoas e que invariavelmente executa as mesmas tarefas é algo que seca o autor, que o destrói e que apenas a escrita o liberta daquele marasmo. (Neste aspeto a "vida" de Bernardo Soares coincide com a de Fernando Pessoa)
Ainda não terminei o livro e julgo que não o farei tão cedo porque gosto imenso de o ler com intervalos para o interiorizar melhor. Creio que em vez de uma leitura seguida este livro também se presta bem a ser lido aleatoriamente com páginas abertas ao calhas. Um livro perfeito para estar à cabeceira da cama, para ler todos os dias um pouco porque todos temos um Bernardo Soares dentro de nós. Um livro que não deve faltar na estante de todos os portugueses!!

3 de abril de 2017

Na semana da Leitura fui ler à escola

Durante a semana que passou, os miúdos tiveram na escola, iniciativas ligadas à literatura e para finalizar, os pais foram também convidados a ler um conto aos miúdos. Aceitei o desafio, assim como outra mãe, e lá fomos nós ler aos nossos miúdos.
Andei a semana toda a pensar no que poderia ler, escolhi alguns livros mas depois acabei por optar pelo mais simples e tradicional: um conto de Grimm.

Quando eu era da idade da minha filha, um certo dia, o meu pai foi só comigo às compras. Fomos a uma livraria e eu pude escolher alguns livros (com poucas ilustrações) para ler. Escolhi três, os quais ainda tenho. Um desses livros foi uma compilação de contos de Grimm que me recordo que escolhi pela capa (um eterno clássico - A book by it's cover), o interior era de texto denso e algumas ilustrações a carvão que na altura me causavam um certo medo. Recordo-me de ler várias histórias, bem como da minha mãe as ler e que na maior parte das vezes ficávamos mesmo com medo porque na sua maioria eram contos bastante sombrios (o mais assustador para mim era Hansel und Gretel).




(ilustrações de A Bela Adormecida e Hansel und Gretel)

Escolhi então um desses contos, não muito vulgar, para ler aos miúdos: O Pescador e a sua Mulher. Como o livro está em alemão, obviamente não o levei comigo, mas imprimi uma versão e adaptei-a para soar melhor. Ainda pensei em seleccionar um conjunto de imagens para passar no datashow mas por fim, apostei em ler apenas o grande texto.
A escolha deste conto foi baseada no facto de não ser um dos contos mais populares como o Capuchinho Vermelho ou o Gato das Botas, quis que fosse uma história clássica, dramática, "inédita" e que lhes passasse uma mensagem forte.

Comecei a ler e os miúdos ficaram pa-ra-li-sa-dos.

No fim via-se que estavam já revoltados com a mulher do pescador, refilavam e quando acabei a história fartaram-se de bater palmas e adoraram aquele momento. Eu fiquei maravilhada!! Claro que li tudo com muito ênfase, muita expressão e eles colados! Depois debatemos um pouco a história e passámos à mãe seguinte.

Confesso que apesar de imaginar que eles fossem gostar da história também tinha receio de a meio perder a atenção deles, mas julgo que o facto de não ter imagens associadas os focou imenso em mim e em todo o drama que é aquela história, um conto sobre a ganância e que eles interpretaram muitíssimo bem.

Recordo-me de quando eu era pequena ficar sempre muito impressionada com a ilustração do meu livro (ver acima), os olhos esbugalhados do peixe, a pequenez do pescador tudo isso estimulava muito a minha imaginação e foi sempre uma história que me ficou na memória. A par do conto do meu livro, coincidia que a minha melhor amiga da altura, tinha um disco de vinil com esse conto e que muitas tardes ouvíamos essa história no gira-discos (parece que estou a falar da pré-história!). A sonoplastia estava perfeita, com o som do mar cada vez mais alto e a chuva intensa; não me lembro de mais pormenores do que esse mas isto apenas para frisar que é impressionante os momentos que nos ficam marcados da nossa infância só à conta daquilo que lemos ou ouvimos...

20 de março de 2017

As leituras de fevereiro e março

Por aqui as leituras têm andado pela rua da amargura. Se comecei lançadíssima em janeiro/fevereiro, este mês a coisa descambou, mas já lá vamos...
Em fevereiro terminei o Ano da Morte de Ricardo Reis, que já falei aqui e li A Vida Inútil de José Homem (da Marlene Ferraz, nossa amiga) e a Clarabóia (de José Saramago), deu também tempo de iniciar a Cozinha Confidencial do Bordain que (ainda) estou a ler.

"A vida inútil de José Homem" é uma história curta mas não foi por isso que entrei rapidamente no ritmo do livro. Há muitas analepses e prolepses, muitos cortes e silêncios e que deixaram alguns momentos assim meio abertos à consideração da imaginação do leitor. Achei-o bastante teatral por causa dos diálogos e dos silêncios e quando comecei a engrenar no ritmo o livro acabou. Gostei bastante!

(cenário de Clarabóia na adaptação ao teatro pela companhia A Barraca, encenação de Maria do Céu Guerra)

Depois iniciei o livro "Claraboia" e é aqui que me vou demorar mais um pouco neste resumo.
Já tinha o livro cá em casa há uns dois anos, é da minha mãe e embora o quisesse ler quando o trouxe, sempre me inibiu o facto do autor não ter autorizado a sua publicação em vida. De acordo com o que pude apurar os herdeiros, juntamente com a editora (na altura a Caminho) decidiram publicar o romance mas cheira-me que Saramago não teria autorizado... O livro foi escrito quando o autor tinha 31 anos e descreve um período de tempo de 6 famílias que moram em 6 apartamentos de um prédio lisboeta na década de 1950 (o livro é de 1953), ou seja, no pós-guerra. O romance foi enviado na altura a um editor e rejeitado por supostamente não apresentar qualidade literária. Depois deste episódio nunca mais José Saramago tentou publicar o livro.
Fiquei então dividida se lia ou não lia a história e acabei mesmo por lê-lo e gostei muitíssimo. Em comparação com outros livros de Saramago nota-se uma diferença grande na densidade da história, mas quem conhece os tiques do autor já reconhece o estilo em desenvolvimento. Tal como o próprio autor diz, trata-se de uma história simples (como ele), e efetivamente é uma narrativa simples, mas se o livro começa de forma ligeira e até cómica, com o avançar da história há vários momentos muito tensos e de uma crítica social muito incisiva. Em vários momentos pensei "foi aqui que o editor se reviu, se embaraçou, se envergonhou e rejeitou o livro", a capacidade de Saramago ser tão certeiro nas descrições das pessoas, das suas fraquezas é genial e este livro, embora de uma fase muito inicial da sua carreira é já um bom indício do que viria por ali... O livro é excelente, simples mas muito bom; fiquei vários dias a pensar naquelas personagens, no papel da mulher portuguesa na década de 50, no papel da rapariga antes de casar e o que lhe estava destinado depois disso entre outros aspectos mais filosóficos. Quanto a mim é um excelente romance de Saramago, sobretudo para quem nunca leu nada do autor; vale a pena ler.





Quando terminei a Claraboia iniciei a "Cozinha Confidencial" do Bordain e ainda estou a mastigá-lo. Vi imensos programas do Bordain, dos quais gosto bastante diga-se, mas o livro, embora não esteja mal escrito, está a pregar-me um secão que não vos digo nada. A narrativa é bastante do estilo "eu sou o maior da minha rua" e se inicialmente até tinha uma certa piada, a verdade é que agora quase a meio do livro já não traz nada de novo e estou a engonhar. Não sei muito bem se o que não me agrada é o facto de não se tratar de ficção ou se é apenas um problema do autor, mas neste momento o meu dilema é: abandono ou não? Dizem-me as minhas amigas que o abandone e provavelmente é o que lhe vai acontecer. E eu que ia tão bem lançada pá...

24 de fevereiro de 2017

Meti-me numa alhada



Quem me conhece um pouco melhor sabe que eu não resisto a duas coisas: pechinchas e coleções.
Ora há dias saímos tranquilamente para ir almoçar quando passo à porta da REMAR e vejo uma estante livreira com a coleção Livros RTP, voltei logo para trás para ver melhor. Entrei, confirmei que se tratavam mesmo dos livros que estava a pensar e vi que dos 100 títulos faltavam alguns e que havia outros repetidos. Chamei a pessoa responsável que me fez uma oferta irrecusável por todos os volumes e depois de uma brevíssima pesquisa online feita no local, pude assegurar-me que facilmente poderia encontrar os volumes que me faltavam.

Ora lá vim então eu, o meu marido e o meu cunhado (vejam bem as minhas vítimas!!) carregados com dezenas de livros que mais parecíamos umas mulas. Então perguntam vocês, porque raio fui eu dar-me ao trabalho de trazer esta coleção, eu passo a explicar.

Para quem não está por dentro do assunto, esta coleção tem vários pormenores muito curiosos sendo o primeiro e mais importante para mim, o facto do design gráfico ter sido da responsabilidade do chamado "pai" do design gráfico português Sebastião Rodrigues, podem saber mais sobre a sua obra aqui e aqui. A par deste detalhe que me interessa enquanto designer, posso também dizer-vos que esta coleção tem 100 volumes e que os títulos são muitíssimo variados. Há ensaios, há contos, há livros técnicos, há poesia e há também originais escritos de propósito para a coleção. Tanto quanto pude apurar esta coleção foi de tiragem semanal e decorreu entre 1970-72 e foi a primeira vez que em Portugal se puderam comprar títulos tão variados a baixo preço e em quiosques, ou seja, literatura variada e de qualidade para as massas.
Perante tamanha carga simbólica não podia de modo algum virar costas a esta oportunidade e agora meti-me na alhada que não consigo ver uma coleção numerada com falhas; mexe-me com os nervos e evito de olhar para os livros :D

Quanto andava no liceu andei durante mais de dois anos a colecionar uns livros dos pintores do séc. XX e aquilo nunca mais acabava. Saíam quinzenalmente e quando a coleção acabou ficou no volume 48, só vos digo que até hoje olho para os meus livros (que estão na minha estante!) e acho inaceitável como é que não foram capazes de editar até ao 50!! Como podem ver isto é coisa que já vem de trás e que é imperativo para mim completar os títulos que me faltam :D

Posto isto até vos digo os volumes que preciso, caso tenham por aí algum para troca, olha é falarem comigo!

37, 38, 52, 54, 57, 58, 65, 68, 69, 77, 82, 85, 91, 92, 96, 97


Livros que tenho disponíveis para trocar - 6, 7, 10 (x2), 11, 13, 14, 34 e 73

7 de fevereiro de 2017

Dilemas do meu serão - o ponto da situação!


Lembram-se de há cerca de um mês eu me queixar que não sabia o que fazer nos meus tempos noturnos de ócio? Escrevi este post e tive alguns comentários que vieram mesmo ao encontro daquilo com que me debatia, afinal havia mais gente com este drama, que não conseguem pegar num livro e que arrastam os dias tal como eu. Poucos dias depois do post e seguindo a sugestão de uma leitora, descarreguei a app GoodReads (que por acaso já conhecia há muitos anos e que nunca mais lhe liguei) e inseri alguns livros que gostava de ler em breve. Mas só adicionar livros a uma lista não foi suficiente, eu aderi a um modesto desafio de ler (pelo menos) 12 livros este ano. Reunidas todas as variáveis técnicas, peguei no livro que já tinha começado e que estava em pausa O Ano da Morte de Ricardo Reis; comprei-o em outubro, li 50 páginas e depois Adeus... Foi então este o meu primeiro livro lido em 2017 e a história é muito muito boa, como a maioria dos Saramagos que já li. À medida que ia lendo, colocava a contagem das páginas na aplicação e a percentagem já lida acabou por ser super motivadora para terminar o livro. Comigo as metas funcionam muito bem, enquanto não atinjo um determinado objetivo fico bastante inquieta e embora lesse pouco de cada vez, terminei o livro em 3 semanas, entrando já em fevereiro...

Embora as metas me tivessem estimulado para o avançar do livro, nada se compara à história empolgante que ali é relatada. Só quem nunca leu um livro de Saramago é que pode ser indiferente às ideias tão curiosas que ele se lembrou para escrever um romance. Este livro em particular impressionou-me pelo facto de ter sido escrito há 30 anos e relatar uma história fictícia passada em 1936 mas que assenta em factos históricos sobre a ascensão do fascismo na Europa em geral e Portugal em particular. Factos esses que estão completamente na ordem do dia pelos piores e mais incríveis motivos (**inspiremos**). Outra vertente muito boa é o vaguear da personagem de Ricardo Reis pelas ruas da baixa lisboeta relatando os edifícios da época, estátuas, o rio, o cemitério dos Prazeres, enfim, locais para quem conhece estas zonas facilmente é levado num passeio muito real com a personagem.

Entretanto já iniciei o livro de fevereiro.
Estou a ler A Vida Inútil de José Homem, da Marlene Ferraz, que para além de ter ganho o Prémio Revelação Agustina Bessa Luís com este romance em 2013, é também amiga da nossa família, tendo sido colega de secundário do senhor meu marido!

E é isto, agora que já consegui ler 500 páginas seguidas estou por tudo :D

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11 de janeiro de 2017

Dilemas do meu serão

(Livraria Lello em 2008, quando eu tranquilamente tomava o meu café no varandim e fotografava o espaço quase vazio)

Leio e adormeço no sofá ou escrevo e fico hiperativa?
Ando sempre com estas questões quando finalmente se instala o silêncio em nossa casa.
Este ano gostaria de ler mais, ou melhor, gostaria de ler! Não tenho lido nada mais longo do que artigos nos jornais online, perco-me a saltar de uns para outros; nem revistas tenho lido, simplesmente não consigo arranjar tempo sossegada e acordada porque há sempre barulho, há sempre brigas, há sempre alguém que quer um copo de água ou procura um brinquedo perdido num buraco qualquer. Não dá!
Podia efetivamente ler um livro de contos, algo mais curto mas agrada-me mais as narrativas mais longas... O problema é mesmo dar continuidade e ritmo a uma empreitada de 300 ou 500 páginas e não tem sido mesmo fácil, eu bem tento mas acabo por interromper um dia, mais outro e quando dou por mim, já tenho o livro pousado ("arquivado") há um par de meses na mesa de cabeceira.
Embora leia pouco, não deixo de comprar um ou outro título e tenho uns tantos em mente para comprar, assim como tenho filmes para ver ou séries mas isso confesso que temos conseguido viabilizar muito graças aos streamings disponíveis na net que isto de ir ao cinema está pela hora da morte.

Numa tentativa de concentrar os meus desejos literários andei em busca de uma app ou algo semelhante para listar os títulos que quero ler ESTE ano e embora não tivesse encontrado nada exatamente como eu queria, acabei por descarregar a app Soon. Nesta app é possível reunir por temas de interesse coisas que se pretendem fazer em breve (soon, lá está), as categorias são fixas e isso é chato embora possa ocultar as que não me interessem, mas por exemplo, eu queria criar a categoria de Temas de Escrita (para os conteúdos deste blog e do Eu, Mãe) e a app não o permite, o que é uma valente seca. Ainda assim, consegui inserir títulos de livros portugueses com sinopses em português, não está mal; por outro lado se apontei o MAAT como museu a visitar em 2017, a app insiste em não localiza-lo em Lisboa. Há muitas pontas soltas a melhorar nesta aplicação, no entanto, para os livros já serve vá... Fica a dica ;)





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24 de abril de 2016

Leitura noctura


E assim, sem previsão, ela pegou num livro da Anita que lhe foi oferecido por uma querida amiga nossa, quando ainda era bebé. Sem estar previsto ou combinado, começou por ler só uma frase a meu pedido, viu que afinal o livro era "fácil". "Só um parágrafo" e a seguir mais um e mais outro e de uma vez foram logo várias páginas.
Vamos ver se começamos finalmente o hábito regular da leitura noturna, nem que sejam apenas 10 minutos.
Leu para o irmão. Parece-me que vamos ter de comprar um candeeiro melhor ;)



15 de fevereiro de 2016

Sobre o post d'O Sistema

Creio que não houve outro post que tivesse estado tanto tempo para ser publicado como o post d'O Sistema. Escrevia, apagava, escrevi a versão final, depois a finalíssima e na hora de publicar fechava o blogger e ia pensar se devia ou não publicar. Por vezes há assuntos que nos inibem, que nos preocupam tanto que receamos falar sobre eles, umas vezes porque temos medo que nos julguem outras porque simplesmente não passam de macaquinhos no sótão e as coisas até são mais simples do que julgávamos. Serve este blog, e sempre serviu, para eu dissertar sobre o desafio que é a maternidade, tal como diz no subtítulo, aliás. Gosto de blogs sem peneiras e é isso que eu também gosto de ser. Ao ter publicado o post do sistema provavelmente terei dado uma parte fraca daquilo que eu sou, mas ter recebido um feedback tão positivo, tantas partilhas sobre as mesmas preocupações deu-me a oportunidade de refletir sobre esta questão e saber que há sempre gente desse lado que passa pelas mesmas questões que nós passamos (sim, porque isto não é um problema que me bate só a mim...) e isso dá-nos alento e confiança quando vemos alguns progressos nas questões que nos atormentam.

Posto isto, era só para agradecer quem ainda lê e comenta blogues, porque efetivamente isso faz toda a diferença!!

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11 de janeiro de 2016

da adolescência para a idade adulta


Mais um marco da minha adolescência que se foi. Não é que ouvisse David Bowie todos os dias, nem todos os meses, provavelmente até estive longos períodos sem o ouvir, contudo é sempre uma referência; aquela referência. Ouvir a sua música é também lembrar-me da altura em que li o livro Os Filhos da Droga, uma leitura que deveria ser obrigatória por também ela ser um marco na vida de muitos adolescentes.

Da nostalgia que me deu hoje...

12 de novembro de 2015

Não há dias perdidos

No meio do corre-corre, choradeiras, leva, traz, supermercado, jantar, banhos e coiso, há sempre uma brisa que nos faz sorrir:

- Mãe, já sei ler! Mas é só na minha cabeça.

passado uns momentos

- Olha, ali diz Mimosa!


:DDDD

26 de setembro de 2014

reflexões para o fim-de-semana

Uma pequena reportagem sobre a vergonha alheia.



Porque às vezes não paramos para fazer o essencial, parece que as nossas vivências só ficam validadas quando as ("com")partilhamos centenas de vezes.
ASPIRATIONAL from Matthew Frost on Vimeo.


Acho que esta entrevista foca aqui vários pontos muito importantes, sobretudo a polémica dos TPC, da desvalorização da educação artística e desportiva e na mania que muitos têm de que os garotos são hiperativos. Gostei muito e deixo aqui a entrevista do Observador na íntegra, para mais tarde recordar.

“Hoje não vou à escola!”, quantas vezes já ouviu o seu filho dizer isto, logo pela manhã, acabado de sair da cama? No início de mais um ano letivo, o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá lança um livro cujo título toma emprestado o protesto infantil. A ideia é explicar que as crianças saudáveis são afoitas, curiosas e que, às vezes, não têm vontade de ir às aulas. “Hoje não vou à escola!“, da editora Lua de Papel, chega esta quinta-feira às livrarias.
Porque “a família é mais importante do que a escola e brincar é, pelo menos, tão importante como aprender”, Eduardo Sá fala dos excessos cometidos no ato de educar uma criança e aponta o dedo tanto a pais como a professores. Defende que, depois de um longo dia de trabalho, é obrigatório que a criança brinque (em vez de se lançar aos trabalhos de casa ditos “XXL”). E, antes de um pai exigir boas notas, deve ensinar ao filho valores como honestidade e humildade.
A crítica às escolas é clara, ao Ministério da Educação também: “Os diversos governos, desde há vários anos — e com todo o respeito — têm gozado com os pais. Fala-se de uma educação para todos e os jardins-de-infância conseguem ser mais caros do que as universidades privadas”. Mas também destaca os longos períodos de aulas e a pouca importância que é dada a disciplinas como educação física e musical. A solução passa, pois, por criar, em conjunto, um sistema educativo onde as crianças fujam para a escola em vez de fugir dela.
Mas o também professor da Universidade de Coimbra e do ISPA, além de autor de livros virados para a saúde familiar e educação parental, deixa ficar ainda o aviso: os pais não devem viver em função da agenda social dos filhos. A consequência pode resvalar para um divórcio a prestações, até porque o mais importante na vida, diz, são as relações pessoais. “Pais mal-amados, por melhores pessoas que sejam, são sempre piores pais”.
A escola é, como diz no livro, “o mundo secreto onde os nossos filhos habitam”. O que quer dizer com isso?Eu tenho medo que estejamos a fazer das crianças uma super produção dos pais, mais do que propriamente dar espaço para elas possam crescer. Preocupa-me, em primeiro lugar, que não tenhamos uma ideia precisa da mais-valia que representa o jardim de infância. Que os pais imaginem que se trata de uma espécie de atelier de tempos livres, das 9 às 17h, e não o vejam como instrumento indispensável a todo o crescimento: tem mais-valias a nível do corpo, da sensibilidade, da expressão… Um bom jardim-de-infância é meio caminho andado para uma escolaridade tranquila. Depois, as crianças não precisam de estar tanto tempo na escola para aprenderem. Mais tempo de escola não é, obrigatoriamente, melhor tempo. Pelo contrário, as crianças precisam de muito mais tempo de recreio. Crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos. Temos de perceber o que queremos, efetivamente, da escola. Se queremos, ou não, uma linha de jovens tecnocratas de sucesso. Acho ótimo que possamos ir por aí, mas jovens assim não são pessoas singulares, são produtos normalizados. E era muito bom que as pessoas percebessem que aquilo que se fala aí pomposamente como mercado vai escolher as pessoas singulares, criativas.
Trata-se de conhecimento em detrimento do pensamento?
Continuamos a favorecer um sistema educativo que premeia fundamentalmente os miúdos que repetem aos que recriam. É um bocado esquizofrénico, quase, porque nós castigamos os que copiam e premiamos os que repetem como se as duas coisas não fossem faces de uma mesma moeda. Temos de pensar muito bem que tipo de estratégia queremos para que as crianças, ao mesmo tempo que aprendem, sejam capazes de ser afirmativas e sensíveis. Depois, é fundamental que se perceba que a família é mais importante do que a escola e que brincar é, pelo menos, tão importante como aprender.
Que equilíbrio sugere entre brincar e trabalhar?
A partir do momento em que as crianças chegam a casa, estão obrigadas a brincar. Brincar faz bem à saúde e é obrigatório brincar todos os dias. É natural que, se as crianças chegam tarde a casa, os pais queiram despachar os trabalhos e utilizem a fórmula “primeiro fazes os trabalhos de casa, depois brincas”. Devia ser ao contrário, porque assim descontraem.
Qual o papel do pai na aprendizagem de um filho?
Os pais deviam ser a verdadeira entidade reguladora das escolas. Há pais que se anulam perante algumas atitudes muito pouco sensatas de professores, seja em relação aos trabalhos de casa, a comentários ou até estratégias pedagógicas. Não gosto de pais que se intrometem de forma abusiva na vida da escola, mas também parece grave que haja aqueles que se anulem. É importante que nós assumamos que a escola tem um tempo que deve ser gerido, no essencial, pelos professores e deve ter nos pais uma entidade reguladora fantástica. Depois, é preciso fazer o resto: porque à parte de todos aqueles tempos, para além do razoável, muitas vezes as crianças chegam a casa e ainda têm não sei quantas atividades extracurriculares; muitas têm trabalhos de casa em formato XXL.
É uma crítica tanto ao professor como ao pai?
Também. Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?
Nestas circunstâncias, o que pode um pai exigir de um filho?
O pai deve começar por exigir que o filho seja honesto e humilde, algo que, muitas vezes, não o faz. A humildade é uma coisa que faz muito bem à saúde, porque ajuda-nos a aprender com os erros. Tenho medo que estejamos a criar um mundo francamente batoteiro, que torna as crianças debilitadas em relação à frustração. Nós, às vezes, somos poucos tolerantes para com os erros das crianças e esquecemo-nos que errar é aprender. Depois de as crianças serem honestas e humildes, acho importante que elas sejam afoitas, mas que, ainda assim, estejam autorizadas a errar. Uma criança que não erra não é um bom aluno, é uma criança que se vai fragilizando à conta de boas notas.
O que seria, então, uma escola ideal?Não é preciso ser uma escola ideal. Uma escola onde as crianças tivessem, sobretudo, aulas de manhã, seria uma boa escola (somos animais com ritmos biológicos muito precisos e aprendemos em função deles; somos mais inteligentes de manhã do que a seguir à hora de almoço). Uma escola que tivesse, inevitavelmente, recreios maiores e onde a parte da tarde fosse preenchida com atividades que ajudem as crianças a serem expressivas, como educação física ou expressão dramática. Se as crianças não forem expressivas, não sabem pensar. É muito bom que as pessoas tenham noção disso, que vivemos num mundo estranho onde o número é mais credível do que a palavra; a nossa saúde mental depende do bom uso que fazemos da palavra.
Eu adoraria que nós fossemos capazes de, em conjunto, organizar um sistema educativo onde as crianças fugissem para a escola. Os diversos governos, desde há vários anos — e com todo o respeito — têm gozado com os pais. Fala-se de uma educação para todos e os jardins-de-infância conseguem ser mais caros do que as universidades privadas. E os livros, os livros, custarem aquilo que custam… Só governos que andam absolutamente distraídos face à realidade e que não têm noção do que é ter filhos entre os zero e os dez anos.
Por que razão escreve que os bons filhos não são os que tiram melhores notas?As crianças saudáveis não têm 5 a tudo. Ao contrário do que os pais pensam, as crianças saudáveis são acutilantes, curiosas, têm a vista na ponta dos dedos e perguntam “porquê”. É tão estranho que as crianças, até entrarem nas escolas, estejam constantemente na idade dos “porquê” e, assim que entram, parecem sair precipitadamente dela — a escola devia ser quem mais incentiva o “porquê”. Os pais devem, no fundo, ter a noção de que as crianças saudáveis podem não perceber de uma matéria, gostar dela ou até não gostar de um professor. Eles não podem aceitar a ideia de que crianças saudáveis são as que têm sempre um comportamento irrepreensível. Isso não é razoável, nada na vida é assim. Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas, porque nós aprendemos à medida que os resolvemos. Às vezes, os pais parecem criar os filhos na expetativa que estes não lhes deem problemas — crianças que não o fazem são, invariavelmente, adultos infelizes. Não tenho nada contra os alunos que tiram boas notas, mas gostava que os pais fossem igualmente exigentes. Isto é, que quisessem muito que os filhos tivessem boas notas na escola, como filhos, como colegas, irmãos, netos…
Costumo dizer, tentando ser provocatório, que tornamo-nos pais com o segundo filho. Com o primeiro mistura-se tudo: a infância que tivemos e a que queríamos ter tido. Os filhos mais velhos passam sempre muito, porque, às vezes, os pais colocam expetativas exorbitantes sobre eles — mais parecem viver confinados a um guião. Se calhar não é por acaso que os filhos mais velhos são os “certinhos oficiais” de uma família e os mais novos são os rebeldes. Preocupa-me que não se dê espaço para ser-se filho e ser-se criança. É inquietante e estúpido. Crescer é uma receita razoavelmente simples: dar o mais possível de colo, um q.b de autoridade e o mais possível de autonomia.
As crianças estão cada vez menos autónomas?
Sim, estão. E as crianças autónomas são expeditas, afoitas, sentem, pensam e fazem. Passividade e paixão não casam.
Os pais sofrem por antecipação pelo facto de os filhos irem para a escola?
Sofrem, porque eles dão mais importância à escola do que esta merece. A escola é fantástica, mas os pais têm de perceber que é fantástica por vários motivos: pelo que se aprende nas aulas, no recreio e no caminho para a escola. Há pais que, cada vez mais, preferem que os filhos entrem na escolaridade obrigatória aos sete anos para que os meninos tenham mais um ano para serem crianças; acham que a infância acaba quando os filhos entram na escola, o que diz tudo. Portanto, as crianças saudáveis são aquelas que, às vezes, se levantam e dizem “hoje não vou à escola”.
Qual a importância da vida social para uma criança?
Acho uma delícia quando os pais recomendam aos filhos (mais velhos) para ter cuidado com os namoros. Primeiro está o namoro e, depois, a escola. A vida ocupa espaço. Namorar é das coisas que ocupa mais tempo, bem como as relações de amizade; aquilo que é importante na vida são as relações pessoais. É ótimo que os pais deem importância à vida social dos filhos, mas que não se intrometam nela. É grave quando os pais, à custa da vida social dos filhos, não tenham fins de semana. Mais importante são as relações amorosas dos pais. A agenda social dos filhos ajuda a que, muitas vezes, estes se divorciem. E pais mal-amados, por melhores pessoas que sejam, são sempre piores pais.
Há pais que se anulam neste processo?Há. Claro que a fatura vem logo a seguir. Isto é como na política, nunca há almoços grátis. Há pais que prescindem de uma vida para serem unicamente pais. É um divórcio a prestações.
Voltando à sala de aula, o que é uma criança hiperativa?
Acho que a Direção-Geral de Saúde devia fazer uma campanha pública porque parece existir uma epidemia atípica. Acho importante que constatemos as dificuldades das crianças, mas que não nos ponhamos a medicar com mão leve como se elas tivessem de ser irrepreensíveis.  Uma criança com várias horas de aulas, poucas de recreio e pouca atividade física é seguramente mais distraída. Isso significa que ela tenha algum defeito ou que, na sua ingenuidade, os pais e os professores, pela má gestão que fazem, vão contribuindo para essa dificuldade? Preocupa-me muito que, em Portugal, as crianças tenham cada vez menos atividade física e preocupa-me ainda mais que haja ministros da Educação e ministérios que achem que a educação física seja uma disciplina de classe B, quando comparada com a matemática ou o português — não me choca nada que se possa reprovar o ano com negativa a educação musical e a educação física. Acho que estas pessoas não deviam ser ministros da Educação. O Ministério da Educação, nestas circunstâncias, devia fechar para balanço. As crianças que têm mais atividade física pensam melhor e são mais atentas. Há turmas em colégios de Lisboa em que se contam pelos dedos das mãos as crianças que não estão medicadas, como se isto não tivesse efeitos secundários.
Que tipo de consequências estamos a falar?
Aquilo que parece uma mais-valia, a longo prazo é uma limitação.

31 de março de 2014

para o lanche - queque floresta negra





No Natal, o meu irmão e cunhada ofereceram-nos este livro e mais um kit de ferramentas para fazer queques, ou cupcakes em chique. Tenho andado a ver se surge uma oportunidade de experimentar uma receita, são todas fáceis e super apelativas, então chegou o dia e escolhi a última - Floresta Negra!!!
Surpreendentemente consegui seguir uma receita sem achar "que isto não pode estar certo" e o resultado foi positivo - ficaram excelentes. Tirando o facto de eu não ter kirsch e ter substituído as cerejas por morangos, todo o resto foi igual, portei-me mesmo bem!!! Fiquei tão maravilhada com o resultado que não resisti a fotografar o meu feito. Deixo-vos a receita para vos inspirar num dia de chuva, que foi o caso de ontem. Fizemos os queques em pouco tempo, durante a sesta do mais novo, e a mais velha sempre empenhada em ajudar e decorar!

ingredientes queque:
2 ovos
90gr de chocolate negro partido em pedaços
1 c de sopa de cacau
115gr de manteiga à temperatura ambiente
115 gr de açúcar
150 gr de farinha com fermento
2 c de sopa de miolo de amêndoa picado
2 c sopa de kirsch
50g de cerejas (não pus)
6 cerejas/morangos cortados ao meio (decorar)

ganache:
100 ml de natas
100 gr de chocolate negro
1 c sopa de kirsch

serve 12

Pré-aquecer o forno a 180º
Derreter o chocolate e mantê-lo morno/mole. Bater a manteiga com o açúcar até ficar uma massa fofa e esbranquiçada. Adicionar um ovo de cada vez, depois o chocolate derretido e depois o miolo de amêndoa. Envolver a farinha e o cacau, juntar o kirsch e as cerejas. Levar ao forno durante 20 minutos em forminhas individuais.

Ganache
Levar as natas ao calor quase até começar a ferver e misturar com o chocolate até tudo estar homogéneo. Repousar durante 5 minutos, mexer bem e juntar o kirsch. Deixar arrefecer durante uma hora até ficar espesso (eu não fiz isso, pus apenas no frigorífico uns 15 minutos...)

Quando arrefecidos, decorar os queques com a ganache e a cereja/morango. Polvilhar com cacau ou raspa de chocolate. Super nham!

13 de janeiro de 2014

Feedly

Se calhar sou a última a saber, mas tudo bem, descobri agora o Feedly e estou a gostar. Antes usava o Netvibes para ter os meus blogs do coração todos alinhados e agrupados em pastas temáticas. Em pequenos resumos dava uma vista de olhos em toda a atividade da blogosfera, mas a coisa dava asneira na plataforma móvel. Ou seria do meu telemóvel, ou da própria aplicação, aquilo não me satisfazia.
Entretanto dei uma oportunidade ao Feedly. É também um organizador de feeds/blogs mas desta vez funciona muito bem no meu telemóvel (Android). Primeiro organizei tudo no computador, depois foi só explorar o funcionamento da app e até agora tudo bem. Ainda me estou a ambientar, sobretudo porque ele escolhe as Top News e nem sempre consigo perceber onde ando, mas eu chego lá. Acho giro a proatividade do Feedly, ele toma a liberdade de me sugerir mais blogs dentro das temáticas que já escolhi, é fofo.
Fica a dica para quem anda à procura de um reader/leitor de blogs.



10 de janeiro de 2014

Kinfolk Table - o livro do convívio à mesa


Dias antes do Natal decidi comprar este livro, Kinfolk Table, para oferecer ao meu marido (e a mim própria). Ainda não tinha comprado nada (à excepção de dois magníficos pares de pantufas da serra) e numa noite detive-me a tentar perceber o que girava em torno deste livro que toda a blogosfera falava.
Investiguei o site, vi as revistas, vi os filmes, vi várias páginas do livro e fiquei rendida ao estilo quase Shaker de todo o ambiente. Fotografias lindíssimas, muito bem tiradas e editadas, uma paginação sem grandes artefactos e um conteúdo cativante - a escolha estava feita. Ele ficaria com a parte dos textos, eu ficaria com a parte de fotografia :D

O livro aborda vários testemunhos, sobretudo de autores de receitas que já apareceram nas revistas. Não são propriamente chefs, mas sim, pessoas comuns, designers, bloggers, donas de casa, aposentados, decoradores, professores, uma infinidade de atividades e que têm um mesmo denominador comum: o gosto de se sentarem todos à mesa e desfrutarem da companhia de outras pessoas. Partilhar uma refeição, seja com uma pessoa, seja com 20, o que interessa é sentarem-se todos e divertirem-se. As receitas são simples, os ingredientes são maioritariamente comuns e as medidas estão em chávenas/colheres, onças e gramas - não há que errar!


Aqui por casa também gostamos muito de receber os nossos amigos e familiares, embora tenhamos pouco espaço e algumas condicionantes por causa das sestas e horas de deitar noturnas, o que nos dá gozo é ter cá toda a gente, abrir a mesa, usar o nosso "serviço bom", pôr coisas de petiscar e outras de servir. Por norma fazemos a maior parte das coisas, entradas, prato principal e sobremesa, no entanto é também sempre uma emoção quando os nossos convidados nos brindam com surpresas e ajudas inesperadas. A televisão está desligada ou a dar música e os almoços esticam-se quase até ao lanche, os jantares até ao início da madrugada, sempre animados com boas conversas. Sempre!

As nossas crianças já estão a entrar no ritmo, desde os 6 meses que comem sempre às mesmas horas que nós, que se sentam à mesa connosco, com maior ou menor confusão, as refeições são sempre e sem excepção, momentos de convívio e é essa a educação/cultura que lhes queremos passar. Quando chega o povo convidado é festa a dobrar porque as crianças percebem logo o que se passa, sentam-se à mesa connosco, por vezes portam-se mal, mas apesar dos nervos que isso às vezes (me) pode causar, o facto é que é normal haver deslizes, e no fim toda a gente gosta e os encontros repetem-se invariavelmente pela vontade de todas as partes.

Quem gostar de receber, cozinhar, pôr mesas compostas e apreciar bonitas imagens acho que vai gostar muito deste livro. Eu comprei-o na Venda, enviei uma mensagem via facebook e quase de um dia para o outro chegou às minhas mãos. Podem também pedi-lo na wook.pt ou na internacional amazon.com, bem como no próprio site da editora.


fotografias Kinfolk.com