8 de setembro de 2009

Ai Adelaide


Retomando este assunto venho então comentar uma história que acabou bem, mas que podia ter acabado muuuuuito mal.
A Adelaide de Sousa é uma rapariga moderna, e que apesar dos seus 39 ou 40 anos quis entrar na corrente de "vamos ter os nossos filhos como na Idade Média" e mostrar que também ela era capaz. Infelizmente para ela e o seu bebé, a coisa não correu muito bem e ao fim de umas eternas 40 horas de trabalho de parto, lá teve ela que se abalar às urgências para fazer uma cesariana e despachar o trabalho em 20 minutos.
Ao ver a capa da caras, confesso que não resisti ao meu instinto cusco e comprei a dita. Para o meu espanto (ou talvez não) encontrei uma reportagem bastante sensata, onde a Adelaide se mostra arrependida e onde compreende (agora...) perfeitamente que ter uma criança no hospital é de facto uma boa ideia.
Passo a citar algumas partes da reportagem:

"... foi tudo muito diferente daquilo que esperava. No entanto, a história teve um final feliz, porque a nossa ida para o hospital foi no limite do tempo. E ainda bem que consegui ter essa lucidez de ir para o hospital. Ainda por cima, a equipa de médicos e enfermeiros do hospital receberam-nos de braços abertos, o que também me deixou impressionada. (...) Curiosamente, acabei por encontrar no hospital o ambiente emocionalmente mais seguro que procurava, e isso para mim foi, de certa maneira, uma lição de humildade. Porque às vezes achamos que sabemos as coisas, e depois tudo se volta do avesso e temos de conseguir a presença de espírito para admitir que nos enganámos. (...) O tipo de infecção que tive era o que matava as mulheres há 100 anos quando tinham os bebés em casa. (...) Foi uma experiência traumática para os dois, foi como se tivéssemos sobrevivido a uma guerra. (...) Foram quatro dias de agonia física, da dor no corpo da Adelaide, mas também da sua alma. Ela tinha a cara distorcida de tanto sofrer. Foi horrível, foi horrível. Eu (o marido) chorei o tempo todo. Ela estava a gritar e eu estava a chorar. E não era nada disto que nós queríamos. Queríamos um parto em casa, onde nos sentimos seguros, para que o bebé viesse ao mundo e aos nossos braços cheio de alegria e amor. Ironicamente, isso aconteceu no hospital. ..."

Enfim, confesso que fico contente por a vida lhes ter corrido bem, mas sinceramente causa-me estranheza como foi que a pessoa que a assistia deixou que isto chegasse tão longe. Podíam ter morrido os dois, podia a criança ter ficado lesionada, por favor! Ter uma criança é a coisa mais normal do mundo, a toda a hora nascem crianças em casa, nas ambulâncias, em táxias e sei lá mais onde, mas eu cá tenho medo só de imaginar ter um bebé em casa! Acredito que haja muitas pessoas com relatos inacreditáveis dos hospitais onde foram assistidas, mas eu, felizmente, só tenho a dizer bem do Hospital de Aveiro. É público, aparece lá todo o tipo de gente, mas aparecem também todo o tipo de problemas, e a assistência é boa, solidária e sempre com muita iniciativa proactiva.
Acho que esta história serve de lição a muita gente que anda com ideias peregrinas, não se brinca com estas coisas, ai ai ai!

7 comentários:

administrador disse...

Bem, aqui a Adelaide aprendeu a licao, só espero que outras pessoas ponham os olhos nela!

Quando dizes que estao sempre a nascer criancas nas ambulâncias, ou em casa, isso acontece porque a natureza assim o quer, nao é porque as maes querem esta coisa Zen que a Adelaide procurava :-S

Olha, o Sérgio nasceu em casa, ok, já lá vao muitos anos, mas quando a mae dele deu sinal que tinha que ir para hospital (ele tinha ou 7 ou 8 meses), o pai foi à garagem buscar o carro, e quando chegou a casa ele já tinha nascido :-D, e a mae dele estava sozinha, o tempo todo :-D, depois lá tiveram que chamar uma parteira para tratar dos detalhes, e a seguir, finalmente, foram para o hospital

R. disse...

Tb fiquei curiosa e quis comprar mas já não havia na banca em que passei.

Ainda bem que ela reconheceu o erro, mas o que me faz mais confusão é que as pessoas que a assistiram tenham deixado as coisas chegar àquele ponto.

Assisti, durante a gravidez, a um workshop sobre a tão falada "humanização" do parto e reconheço que à coisas em que os hospitais têm que mudar (por exemplo, a posição de parir, é uma daquelas fulcrais), mas daí a retirar o nascimento do hospital vai uma distância grande! A questão da epidural também não é pacífica - no meu caso a epidural perdeu o efeito no período expulsivo e por isso tive bastantes dores, mas graças a elas pude evitar que se fossem usados os forceps que já estavam prontinhos para entrar em acção...
Na Maternidade em Coimbra posso dizer, contudo, que nos proporcionaram o equilíbrio certo entre a instrumentalização e a privacidade da família - não mudava nem uma vírgula do nascimento da Laura!

R. disse...

desculpa, não é "à coisas", é "Há coisas"

**SOFIA** disse...

R. desculas aceites :DDD


carla: fogo nao sabia que o sergio tinha nascido em casa! acho que não conhecia ninguém (tirando os meus tios e os do rui) que isso tivesse acontecido. que cena mirabolante! é que para além de ter nascido em casa o gajo ainda foi prematuro. sempre arrojado o nosso sérgio :D

ines disse...

Eu já tinha feito o meu comentário sobre esta situação alguns posts abaixo e este relato da Adelaide só veio confirmá-lo. Este episódio foi lamentável do princípio ao fim. Os "profissionais" (espero que quem se intitule doula ou parteira ou menos se veja como um profissional da "humanidade" e não como um curioso ou amador ou artista, ao menos isso, mas nem parece...) que a acompanharam deixaram-na entregue a si própria, não a orientaram nem tomaram as rédeas de uma situação tão delicada; pelo que li foi decisão apenas dela ir para o hospital quando a situação há muito era insustentável. Por exemplo, ninguém a aconselhou a ir para o hospital 24 horas (e já ia muito tarde!) depois das águas rebentarem? Ninguém lhe disse que cara de sofrimento, dores, choro compulsivo e agonia não rima com "humanização" do parto? Enfim, coitados destes dois.
Eu li a entrevista toda e a minha única satisfação é que tanto a Adelaide (que correu risco de vida, com uma grave infecção) como o bebé estejam bem e que ela e o marido tenham dado com tanta sinceridade e humildade a cara para revelar o lado desumano da "humanização" do parto, bem como reconhecer o trabalho meritótio de quem faz verdadeiramente profissão trazer crianças ao mundo. O seu relato foi do mais franco possível, reconheceram a sua responsabilidade, ou falta dela, e realmente se arrependeram das suas escolhas insensatas. Possam outras mulheres que pensam apostar no parto em casa aprender com este relato não tão cor-de-rosa...

Marina disse...

Isto do parto em casa ser bom ou mau, se ela teve ou não quem a aconselhasse convenientemente, não se deve fazer generalizações... Mas quem não arriscava era eu! Com as vidas de uma mãe e de um filho não se brinca. Correndo bem a coisa ou não tem de se ir sempre para o hospital ver se está tudo bem com a mãe e o bebé...
Ainda só li três posts mas estou a gostar. Vou seguir, pode ser? Se quiseres visitar o meu blog podes contactar-me em marinapires79@hotmail.com
Beijinhos!

**SOFIA** disse...

olá Marina, sejas bem-vinda e podes estar à vontade para seguir esta aventura.
beijinhos
sofia